quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Excerto do Segundo Volume "Partilha de Sangue"

      - Como assim, Senhora Anastácia?
      - Repare no silêncio, desta casa, sem a menina Sarah. Ele, o silêncio, anuncia uma viagem sem retorno. Há tanto para fazer antes de a perder. Não conseguirá escapar ao que vai acontecer consigo, menino Abel.
      - Diga-me, o que vai acontecer comigo?
      - O menino já está, de alguma forma, ligado à menina Isadora, razão pela qual, sente que não pode abandoná-la. E só por isso perguntou por ela e não pela menina Sarah – Anastácia continuava focada na conversa misteriosa.
      - Está certa, Senhora Anastácia – Abel abanava a cabeça na forma positiva.
      - Aqui, no Bairro Newton, o silêncio, avisa-nos que o menino Abel se deixou absorver demasiado por esta vida no interior. Não estará possuído por ele?
      - Eu estou absorvido pelo silêncio?
      - É o que parece menino. Embora o nosso bairro tenha um ar de Cidade Grande, ele está situado no subúrbio da região Oeste de Boston. Será que o facto tem influência sobre si? O menino vive sobre uma amnésia profunda. Não dá conta? – Anastácia para disfarçar, olhou de relance pela janela, encarando a paisagem lá fora
     - Não. Não me parece. Definitivamente não, Senhora Anastácia.
     - Mas está obcecado por Isadora. Porquê?
     - Suponho que me comoveu vê-la aos gritos quando a encontrei em sua casa, na aldeia Good Order, nas periferias da Cidade de Pádua. Quando  eu estive em Itália. Na altura que também estive com a Senhora Anastácia, lembra? Ela estava muito assustada e  com sentimentos de culpa, por ter perdido a mãe na hora que a deixou sozinha.
     Anastácia sorriu.
     - Encontrou-a?
     - Quem?
     - Isadora.
     - Claro. Encontrei-a. Encontrei-a quando entrei em sua casa pela porta fechada. Tanto da primeira viagem, como da segunda, quando a convidei para viver comigo em Boston. Eu trouxe-a aqui, para a minha casa, antes de minha mãe Gilberta mandar a Senhora Anastácia para me servir de companhia e serva.
     - Ela é uma telepata.
     - Sim. Eu sei. Ela disse-me na altura. E voltou-me a dizer quando a fui buscar ao aeroporto de Boston.
      - Ela não viajou de Itália com o menino?
      - Não. Eu cheguei planando.
      - E confiou nela, menino?
      - Confiei tanto quanto ela confiou em mim.
      - O menino sabe que ela é conhecida como uma das muitas vampirófilas que andam atrás dos vampiros? – Anastácia inclinou a cabeça. – Acha, menino Abel, que ela não virá ao seu encontro, como mulher adúltera, quando regressar do passeio à Cidade de Boston? Se ela regressar claro!
      Abel encolheu os ombros.
      - Não sei responder … - disse para desabafar com a serva.
      - O menino ama Isadora?
      - Não, Senhora Anastácia.
      - Eu sabia, menino Abel! Perguntei para o acordar dessa amnésia em que vive.
      - Eu amo Sarah. Amei-a na hora que a vi desprotegida na universidade.
      - Eu cheguei a pensar que amasse Isadora no presente.
      - É só um pensamento seu, Senhora Anastácia. Eu quero melhorar as coisas na vida de Isadora, mas não posso, pois não? Tudo entre nós pertence ao passado. E eu posso mudar o passado? Não. Se eu pudesse mudava o meu e o passado de Sarah. E nós os dois, como vampiros, ficaríamos juntos para a eternidade.
     - O menino pode mudar o passado de Isadora – Anastácia falou num tom, quase casual, desafiando-o suavemente.

      - Como assim, Senhora Anastácia?

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