- Como assim, Senhora Anastácia?
- Repare no silêncio, desta casa, sem a
menina Sarah. Ele, o silêncio, anuncia uma viagem sem retorno. Há tanto para
fazer antes de a perder. Não conseguirá escapar ao que vai acontecer consigo,
menino Abel.
- Diga-me, o que vai acontecer comigo?
- O menino já está, de alguma forma,
ligado à menina Isadora, razão pela qual, sente que não pode abandoná-la. E só
por isso perguntou por ela e não pela menina Sarah – Anastácia continuava
focada na conversa misteriosa.
- Está certa, Senhora Anastácia – Abel
abanava a cabeça na forma positiva.
- Aqui, no Bairro Newton, o silêncio, avisa-nos que o menino Abel se deixou absorver
demasiado por esta vida no interior. Não estará possuído por ele?
- Eu estou absorvido pelo silêncio?
- É o que parece menino. Embora o nosso
bairro tenha um ar de Cidade Grande, ele está situado no subúrbio da região Oeste
de Boston. Será que o facto tem influência sobre si? O menino vive sobre uma amnésia
profunda. Não dá conta? – Anastácia para disfarçar, olhou de relance pela janela,
encarando a paisagem lá fora
- Não. Não me parece. Definitivamente não,
Senhora Anastácia.
-
Mas está obcecado por Isadora. Porquê?
- Suponho que me comoveu vê-la aos gritos
quando a encontrei em sua casa, na aldeia Good
Order, nas periferias da Cidade de Pádua. Quando eu estive em Itália. Na altura que também
estive com a Senhora Anastácia, lembra? Ela estava muito assustada e com sentimentos de culpa, por ter perdido a
mãe na hora que a deixou sozinha.
Anastácia sorriu.
- Encontrou-a?
- Quem?
- Isadora.
- Claro. Encontrei-a. Encontrei-a quando
entrei em sua casa pela porta fechada. Tanto da primeira viagem, como da
segunda, quando a convidei para viver comigo em Boston. Eu trouxe-a aqui, para
a minha casa, antes de minha mãe Gilberta mandar a Senhora Anastácia para me servir
de companhia e serva.
- Ela é uma telepata.
- Sim. Eu sei. Ela disse-me na altura. E voltou-me
a dizer quando a fui buscar ao aeroporto de Boston.
- Ela não viajou de Itália com o menino?
- Não. Eu cheguei planando.
- E confiou nela, menino?
- Confiei tanto quanto ela confiou em
mim.
- O menino sabe que ela é conhecida como
uma das muitas vampirófilas que andam atrás dos vampiros? – Anastácia inclinou
a cabeça. – Acha, menino Abel, que ela não virá ao seu encontro, como mulher adúltera,
quando regressar do passeio à Cidade de Boston? Se ela regressar claro!
Abel encolheu os ombros.
- Não sei responder … - disse para
desabafar com a serva.
- O menino ama Isadora?
- Não, Senhora Anastácia.
- Eu sabia, menino Abel! Perguntei para o
acordar dessa amnésia em que vive.
- Eu amo Sarah. Amei-a na hora que a vi
desprotegida na universidade.
- Eu cheguei a pensar que amasse Isadora no
presente.
- É só um pensamento seu, Senhora
Anastácia. Eu quero melhorar as coisas na vida de Isadora, mas não posso, pois
não? Tudo entre nós pertence ao passado. E eu posso mudar o passado? Não. Se eu
pudesse mudava o meu e o passado de Sarah. E nós os dois, como vampiros, ficaríamos
juntos para a eternidade.
- O menino pode mudar o passado de Isadora
– Anastácia falou num tom, quase casual, desafiando-o suavemente.
- Como assim, Senhora Anastácia?

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